O Gênio e o Mestre
Uma palestra a respeito de Einstein em 2005 poderia ser apenas mais uma, entre muitas, em homenagem à Física e ao trabalho fundamental do cientista que descobriu o laser e a energia nuclear.
Ao menos, parecia. Porém, outros elementos se inseriram no cenário e deram-lhe uma dimensão maior.
Importante poder desfazer o mito, a crença de que o Gênio fora um mau aluno. Ele apenas foi um crítico de que a escola não era estimulante. Desde muito cedo, lia e aprendia a partir dos livros. Com dezoito anos pedia a sua namorada que então vivia na Alemanha, quando ele já se mudara para a Itália, entre muitos outros livros, os dois volumes de o "Tratado de Teoria cinética dos Gases" de Boltzmann. A correspondência entre eles se desenvolveu paralelamente à troca de volumes de teoria da ciência.
Ledor autônomo e crítico, só podia ser mesmo um aluno deslocado da realidade de seus parceiros de geração. Talvez um aluno incômodo para os professores isentos de certa sensibilidade.
Saber um pouco mais a respeito de seu trabalho, foi o que desejei. Perdi a visão mágica (outro mito, outra crença popular?) de que o ano 1905 foi um ano especial porque Einstein descobriu a teoria da relatividade. Foi sim o ano em que ele publicou o primeiro documento a respeito da sua descoberta, que, na verdade, se alongara em cerca de oito ou nove anos de pesquisa e estudo. Entendi um pouco mais, a partir de outro raciocínio como se chegou à relatividade do tempo e do espaço, quebrando a noção do absoluto pela qual a ciência tanto se orgulhava. As explicações foram muito didáticas, o que muito agradeci, pois o público era na grande maioria pessoas ligadas de alguma maneira à Física.
E, de novo, me veio a estranha sensação de que as descobertas da ciência marcam uma maneira de ver o mundo. E essas descobertas, quando suficientemente significativas, acabam se diluindo por outras áreas da cultura e de nossas vidas. A isso talvez denominem paradigma. Senão como explicar a força da relatividade em nossa cultura contemporânea, muito além daquilo que a ciência afirmou a respeito de velocidade e de tempo, em raciocínio lógico, tâo dentro de nossas peles e experiências cotidianas ?
Ao longo do século XX, pudemos observar a quebra do que foi a Modernidade. Desse ruptura, recebemos a herança perversa da pós-modernidade, a atualíssima hipermodernidade e outros dramas como a perda de identidade e a destruição de particularidades de nossa natureza, com o avanço da tecnologia e a noção do aceleramento da vida.
O conceito de relatividade pode estar nos fundamentos desses conceitos que assolam a cultura contemporânea. Tais experiências talvez possam ser um reflexo da relatividade em que nos temos embrenhado. E não incluo conceito de valor nesse quadro. Como diz Newton, são as leis do movimento. A cultura se embrenhou por caminhos tão tortuosos porque era momento para esse específico desenvolvimento. Simples, nessa perspectiva mais ampla, longe de nossos sofreres e penares particulares e coletivos. Nem bom nem ruim. Um certo paradigma, ou o momento atual em que paradigmas se confrontam? A ciência fala essa linguagem maior que explica e justifica movimentos que a nossos olhos particulares e pequenos ficam tão sem sentido.
E, finalmente, percebi a grandeza de percepção dos fatos da ciência e da vida, no olhar do palestrante, um professor de oitenta e três anos que pôde construir um currículo de serviço exemplar para a Física e a Educação. Foi emocionante perceber dois ou três senhores na faixa de quase sessenta, seus ex-alunos, prestando-lhe homenagem e o observando com admiração.
Saí de lá com minha força pessoal alimentada pela inspiração do Gênio e pela presença fecunda do Mestre. Talvez com menos submissão à relatividade dos fatos, e com mais certeza (absoluta?) de que a busca do conhecimento ilumina os desvãos dos caminhos.
Escrito por AnaGon às 08h13
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