Do Imaginário


Na telona - O Grão, de Petrus Cariry

Sons e silêncios          

O filme é nacional e se passa em uma vila do Ceará, no NE, Com pouca ação e bela fotografia. Ele ganhou prêmios, como o de melhor filme no festival de Viña del Mar e outros, como o de melhor fotografia, em Miami.  É verdade que a pessoa que estava sentada ao meu lado no cinema ficou o tempo todo olhando o relógio e saiu assim que os letreiros começaram a subir na tela, mas quem diz que unanimidade é coisa importante nesta área?

O filme é realmente parado, mas deixou impressões fortes em mim, ligadas à sonoridade, aos sons e aos silêncios dentro de olhares, às vezes longos. Trata-se de uma trilha sonora original, com intervalos de muitos silêncios. O pai, condutor de cabras a serem abatidas; a mãe, a fiar; a filha, a tingir fios e a se preparar para o casamento; a avó  Perpétua, a envelhecer, a enfraquecer e a contar história ao menino Zeca, que observa tudo isso, um pouco brincando com seu cachorro, indo à escola, mas, principalmente ouvindo a história da avó.

Nesse universo limitado, sobram imagens de um rio ao fundo da casa, com brilhos da água e um barco meio afundado às suas margens, e de naturezas-morta, quando o foco pára nos cantos da casa ou no cachorro que dorme embaixo da mesa da sala.

Mas, os sons são mágicos e falam o que a narrativa nos nega, como se eles pudessem fazer contraponto com a presença física e muda das personagens.

E fazem quando o som de um (possível) caminhão, no início do filme, anda por uma estrada, por tempo longo o bastante para nos mostrar a lonjura do lugar. Ou quando a TV, falante e barulhenta, ocupa o espaço em que vive a família silenciosa, mostrando situações tão diferentes e longínquas; ou então quando vemos Fátima, a moça, a se mexer em ritmo vindo dos fones de ouvido, fechada á realidade em que vive.

E ocorrem também os muitos trinos de pássaros e os ventos que passam levantando os panos estendidos nos varais e nas janelas; a roda de tecer, a roda do jogo com fundo musical, os guisos das cabras, a voz do pai a falar com os bichos. Escutamos também as águas balançando e batendo nas margens do rio, ou carregando para cá e para lá uma tábua perdida por ali. E ouvimos a música alegre que acompanha o jovem casal que anda na motocicleta - ensaiando a fuga para a cidade após o casamento ?-, os sons da velocidade de carros e caminhões a passar perto da casa, o Agnus Dei e a música sacra. 

Mas, o mais bonito mesmo é o som da voz da avó Perpétua a contar a história indiana para seu neto que a ouve atentamente, sempre perguntando pelo que aconteceu depois. Tememos por essa voz, quando percebemos o aumento dos pigarros e da tosse. É a narrativa que sai de sua boca que verdadeiramente nos conduz, ao substituir a ação e vontade das personagens daquela casa. O pai dizendo que  "tá bom do jeito que tá" e a mãe olhando longe pelo rio, sem esperança. Fátima, vai casar e sair. É a única que pode fazer algo, ainda que seja observada com desilusão pela mãe. Na narrativa para a criança, há vida. Ela acontece, ainda que seja com os tons tristes da realidade da avó. As resenhas do filme dizem que essa história teria uma função de preparar o neto para a separação. Talvez possa ser mais do que isso. Nela, há o espaço de uma curiosidade entre avó e neto, há um vínculo muito forte que iluminam os olhos da criança.  

Assim mesmo tão parado, sobraram motivos de inquietação quando saí do cinema. Fiquei pensando se era um filme que me lembrava o mundo de Saturno, pela dura realidade, pela escassez, pela falta de imaginação. Talvez fosse  mais um mundo pisciano, pelos brilhos e a água imensa do rio. Pela sensação de  prisão, pelo enclausuramento. Pela falta de saídas, que parece ser indicada quando a ambulância leva a avó e os que ficam só olham sem esperança. E depois?  Mesmo a história da avó levanta um mundo de fantasias.

Não importa respondermos a essas perguntas, nem mesmo identificarmos com segurança se esse mundo é saturnino ou pisciano. No mundo pisciano do cinema e em um filme como esse, os limites da imaginação são liberados.  A liberdade do diretor nos convida. Por que não  ficamos com um pouco de Saturno e um outro tanto do signo de Peixes? 

Sobra ainda um som final a tocar nos meus ouvidos com a imagem das águas do rio: a Cantata  de Bach.

   

    

 

 

 



Escrito por AnaGon às 18h01
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Leitura de jornal

As meninas pelo mundo

Nos finais de semana, sempre que posso, perco-me nas folhas do jornal. Assino um, mas poderia ser outro. O prazer é descobrir o mundo que há nele.

No dia 4 de julho último, vi a notícia de uma cineasta jovem brasileira, Tata Amaral, apresentando seu filme em Londres. O filme chegou a fazer sucesso no Brasil e até virou série na TV: Antônia. Não vi o filme, mas acompanhei com interesse o caminho que a diretora e seu filme fazem por aí. Festivais em Berlim, Toronto. Lançamento nos EUA com investimento grande. DvDs pela Netflix.

E como explicar isso, já que as personagens são tão brasileiras, com contexto idem?  Ela diz: " É uma história de mulheres exuberantes e lutadoras. Na platéia do Barbican havia representantes de comunidades da periferia de Londres. A questão humana é sempre universal." 

 A arte nos acorda sempre para verdades como esta.  Fiquei com vontade de assistir ao filme.  

 



Escrito por AnaGon às 07h54
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