Do Imaginário


BUENOS AIRES  E PALESTRA 

Já me tinham falado muito bem da cidade. E por questões variadas, nunca cheguei a visitá-la, embora tenha tido sempre o pé na estrada.

O artigo da última postagem fala de um filme argentino. O bonitão Ricardo Darin e uma interessante história de suspense e de amor me levaram a Buenos Aires. Explico melhor: fiz um estudo sobre o filme. Ele tinha informações que poderiam valer um trabalho de cunho astrológico. Fiz o trabalho e lá fui eu fazer uma palestra em evento de astrologia organizado por Gente de Astrologia (GeA) de direção de Sílvia Ceres, em novembro de 2010.  Mas, o que me interessa mesmo é escrever sobre a viagem.

Linda cidade, Buenos Aires. O hotel em que me hospedei ficava quase na esquina da Avenida Corrientes e Callao, no centro.  Entre outras avenidas e muito comércio, livrarias (parece até verdade que o argentino lê muito!), cafeterias, restaurantes. Conheci a Plaza San Martin, a estátua do Libertador da Argentina e segui pela Avenida Libertador a pé.  Uma aula de história rápida. Rapidíssima.

Vi galerias grandes e sofisticadas, comércio de todo o tipo, brasileiros aos montes, a Plaza de Mayo ( famosa por suas mães, agora já avós), a feira de San Telmo, a Casa Rosada, O museu Nacional (por fora, pois estava fechado).

Mas, foram outros detalhes que fizeram minha viagem acontecer como experiência. 

Em cada esquina havia retratos da Evita e do Perón. Em menor quantidade, do Che Guevara. Saudosismo? Os cartazes de manifestações políticas estavam em grande parte das avenidas grandes.

Os vidros marchetados do restaurante em que almocei um macarrão com molho de pesto compuseram um cenário com as fotos do Jorge Luis Borges no pilar perto da porta de entrada. 

O CD do Piazzola que comprei na primeira noite, indicado por um senhor que leu no meu rosto o que eu queria. E os (muitos) livros de astrologia de editora espanhola, uma alegria. 

O bairro Boca, com sua diversidade popular e turìstica, com o Estádio da Bombonera. A arquitetura moderna do Museu Proa, vidros  e grandes espaços brancos. A vista do andar superior sobre o bairro para os tetos da vizinhança interna. A vista do museu do pintor Quintela para fora, sobre as águas do rio. Os barcos no Puerto Madero.

São as pequenas impressões que marcam uma viagem. Como turistas andamos por grandes espaços, mas quando paro para relembrar é o detalhe, o riso, a surpresa, o assombro que ficaram.

Não quis visitar o cemitério famoso perto da praça da Recoleta. Mas, acompanhei a dança de uma família que deliciava as pessoas que passavam por lá sob o céu de chumbo, chuva anunciada.

Degustei a sobremesa especial de massa folhada, com recheio de doce de leite, coberta com creme e o peixs com limão siciliano. E a companhia do amigo brasileiro com muitos cafés pelos caminhos e papo.

A astróloga equatoriana, três palestras sobre Lua no evento(sem que houvesse repetição entre elas), a apresentação de trabalhos de final de curso na escola de astrologia (Casa Onze). Uma atividade argentina que, infelizmente, não ocorre na formação do astrólogo brasileiro.

Turismo e astrologia , na medida certa. Quero mais alfajores, mais dança na praça, mais Buenos Aires!         



Escrito por AnaGon às 23h06
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OS SEGREDOS DE SEUS OLHOS E A LUA

O filme Os segredos dos seus olhos recebeu dos críticos menos estrelas do que merecia. É um grande filme, ganhador do Oscar de filme estrangeiro em 2009.  Eu desejei entender a razão pela qual a personagem passou tanto tempo com uma memória guardada, possivelmente a incomodá-lo.  Será que a resposta encontrada é convincente?  

                                                                                

Os segredos dos olhos de todos nós: as muitas faces da lua

Nas manifestações da cultura contemporânea, podemos observar arranjos interessantes de interdisciplinaridade. Andando por aí, percebi uma rede possível de significados entre o filme argentino e o símbolo da lua. Daí que, depois de informações sobre o filme e a lua, tentaremos chegar aos significados que existem entre eles.

A trama do filme fala de um crime sem solução há 25 anos, que é revisto pela personagem masculina. Benjamín (Ricardo Darín) sentindo-se motivado a escrever um livro sobre esse fato busca Irene (Soledad Villamil) que era sua superior e companheira nesse caso. Tal encontro dará origem à ação do filme e à recolocação de decisões pessoais feitas por ele no passado.

Por sua vez, a observação astronômica do movimento da lua em suas fases e eclipses,  propiciou ao ser humano, desde os tempos primordiais, a elaboração de aplicações práticas e de concepções cosmogônicas da vida. Sendo o mais rápido e o mais individual dos corpos planetários, representa nosso lado emocional e a necessidade de segurança. Indica as repetições, quase automáticas, que as pessoas organizam para se ajustar ao ambiente da vida cotidiana, na intenção de manter o conforto pessoal, embora tais repetições se fixem e permaneçam, às vezes, como vícios compulsivos. Ocorre, nesses casos, uma rejeição natural contra o que pareça ser contrário aos hábitos, impedindo espaços para situações novas. Cabe, então, fazer a pergunta: será que, ao guardar a memória do crime não solucionado por tanto tempo, Benjamin se deixou levar por uma questão emocional e lunar?

Ressonâncias e metáforas

O olhar de um homem, repetido em algumas fotos, deflagra a hipótese que poderá desvendar um crime e é o primeiro indício de possíveis relações do filme com os significados da lua. Dela, só podemos visualizar uma de suas faces e, ainda assim, na forma de fases que se sucedem continuamente. Ela detém segredos, portanto. Assim também, os olhos são os mensageiros de significados internos, podendo revelar intenções, desejos, podendo também guardar segredos. A desconfiança atenta de Benjamin e a cobiça dos olhos de Gomes são as chaves para entrar no mundo lunar de ambos. 

Ao lado dessa expressão que é externa, temos também, a sensação interna que indica quem somos ou fomos um dia. Irene, numa confissão a respeito dos efeitos da passagem dos vinte e cinco anos em si mesma, diz: Não me reconheço. Eu era outra e era jovem. 

E dessa passagem do tempo - a vida -, pode-se apreender algum sentido? Como se faz para viver uma vida plena?, se pergunta Benjamin, cuja vida é cheia de nada. E, Sandoval, o amigo fiel já sabe a resposta: a paixão preenche a vida. Beber no bar até não saber voltar para casa é uma paixão que dá sentido a sua vida. E Benjamin ainda escuta seus argumentos: Muda-se tudo: religião, deus, sapato. Não se pode mudar de paixão.

Não se trata da paixão de um relacionamento amoroso ou afetivo, mas daquela proveniente de apego ao que é confortável e que permanecendo, oferece segurança. Beber faz sentido para Sandoval e pode se chamar apego, repetição do conforto, comodismo e sensação de preenchimento pelo conhecido.

Porém, acontece uma resistência: como se soltar do vício, em direção ao desconhecido? Quem precisa do futuro se encontra tanta paixão e conforto?

Além dessa vivência lunar que oferece valor e faz a passagem do tempo ser mais fácil, há outro tipo de apego quando um evento do passado permanece pelo exercício da memória como uma escravidão. Essa experiência submete as personagens Morales e Benjamin. A idéia de escrever um romance sobre o caso de Morales se define como uma memória guardada e fixada. Talvez seja indício de uma paixão, de um vício. 

Essa ligação de Benjamin com a história de Morales vai além da questão judicial mal resolvida. Na verdade, há um espelhamento da personagem nessa história de amor, que é admirada por ele por sua fidelidade e compromisso. E nesse espelhamento há a imagem da lua dependendo e vivendo de outra luz.

 Benjamin só percebe a necessidade de viver sua história de amor ao entrar em contato com a resolução da vida de Morales. Talvez tenha ampliado sua consciência em relação a sua própria história. Há algo que se realiza nesse momento.

Talvez ele tenha se libertado dos padrões repetidos ao longo do tempo, se afastando desse hábito fixado. Consegue reescrever o papel lembrete (de TEMO para TEAMO). Age na situação, quebrando a rotina de longos vinte e cinco anos. Ele transita do lado lunar para o solar. A personagem tem coragem para marcar sua identidade, numa decisão que é solar. Não quis mais permanecer nos escuros desvãos do passado e de comportamentos de insegurança.

Assim como há uma relação astronômica entre lua e sol, também a encontramos na experiência humana. Seria o sinal de um equilíbrio talvez desejável. Viver somente o lado lunar pode não ter sido o melhor para Sandoval nem para Morales. Benjamin pôde fazer uma opção diferente, fechando o grande ciclo de experiência lunar e solar. Realizou o desejo de amar Irene, superando o temor de se lançar na aventura de amar e ser amado.    

No diálogo final do encontro entre ele e Irene, ficamos de fora. A porta se fecha na cara do espectador. Ela marca a diferença entre o externo e o interno. Em outra manifestação típica da lua, há que se preservar o que é íntimo e privado em nossas vidas.

Que a porta se mantenha fechada diante de nós.

PS: Um texto mais completo a respeito do tema está publicado em http://www.constelar.com.br/constelar/147_setembro10/segredo-dos-seus-olhos.php



Escrito por AnaGon às 20h08
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